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Entretenimento

‘Galinha Pintadinha: O filme’ marca estreia da ‘diva pop’ animada no cinema em aniversário de 20 anos

outubro 1, 2026Nenhum comentário0 Visitas
Demorou, mas a personagem galinácea azul inevitável para qualquer pai de filhos pequenos nas últimas duas décadas no Brasil finalmente chega aos cinemas. “Galinha Pintadinha: O filme” estreia nesta quinta-feira (1º) como o lançamento da “diva pop” animada em uma produção com equipe (quase) “100% brasileira”.
A personagem nacional, criada por Juliano Prado e Marcos Luporini, há 20 anos domina o YouTube, produtos licenciados de higiene a material escolar, peças teatrais e festas de aniversário, mas dá o passo mais ambicioso de sua trajetória.
Com cerca de cinco anos desde a concepção, o longa metragem de animação coloca a ave azulada em uma aventura para resgatar seu ovo, que foi trocado por uma cegonha atrapalhada com o filhote de um gavião ameaçador.
Assista ao trailer de ‘Galinha Pintadinha: O filme’
Para colocar o projeto de pé, a dupla — que assumiu também as vezes de diretores, roteiristas e produtores — mobilizou um time de cerca de 400 profissionais.
A estreia nos cinemas coincide ainda com a inauguração de uma área temática inspirada no universo da personagem no parque Beto Carrero World — um “acidente feliz” após anos de conversas paralelas que acabaram desembocando quase ao mesmo tempo.
Em conversa com o g1, Prado, de 55 anos, e Luporini, de 56, detalharam os desafios técnicos de renderizar “pelinho por pelinho”, relembraram a gravação das primeiras canções em 2002 e comentaram como administra uma estrutura enxuta diante de um fenômeno que há muito tempo virou “diva pop”.
Leia abaixo a entrevista, editada para clareza:
Juliano Prado e Marcos Luporini, os criadores da Galinha Pintadinha
Divulgação
g1 – Por que levou cerca de 20 anos para a Galinha Pintadinha virar um longa-metragem no cinema?
Juliano Prado – Fazer cinema é um bicho bem difícil, complicado mesmo. Primeiro você precisa aprender a fazer, e a gente ficou uma boa parte desse tempo estudando (risos). A gente fazia conteúdos menores, como clipes e séries. O sonho de fazer um filme sempre existiu, mas deixamos essa vontade amadurecer bem antes de tomar a decisão. Quando começamos, queríamos justamente fazer algo com linguagem de cinema mesmo, não só uma extensão, meio oportunista, do nosso conteúdo.
g1 – Como nasceu a ideia do roteiro e o processo para tirá-lo do papel?
Marcos Luporini – Todo personagem que quer sobreviver por muito tempo precisa se renovar. Quando decidimos fazer o filme, a primeira coisa foi buscar uma boa história. Fizemos mesas de criação com diferentes artistas até chegar na ideia da troca dos ovos. Ela abre espaço para temas muito bonitos, como diversidade, superação, aceitação e maternidade. Quem tem filho sabe que sempre existe uma quebra de expectativa. Quando batemos nessa história, clicou e seguimos nela.
Juliano Prado – Foi uma batalha criativa por um lado e empresarial por outro. A Bromélia sempre teve esse caldeirão caseiro de produção. No filme, tivemos a Hype produzindo a animação, mas as vozes, a criação e as ilustrações de conceito ficaram com a gente. Eu e o Marcos nos concentramos no roteiro e no storyboard/animatic. Foram cerca de dois anos só nessa etapa de história e decupagem antes do processo industrial de modelagem e textura. Foi um projeto com cerca de 400 pessoas.
Marcos Luporini – E buscamos valorizar muito os artistas locais. Muitas vozes foram feitas por pessoas aqui de Campinas, inclusive a cantora Vera Fuzaro, que já estava no nosso primeiro DVD. Tentamos manter a raiz do projeto para não sair voando por aí e esquecer quem a gente foi.
g1 – O filme estreia praticamente na mesma semana em que o Beto Carrero inaugura uma área temática da marca. Foi planejado para coincidir com os 20 anos?
Marcos Luporini – Sabíamos que ia chegar tudo mais ou menos junto, mas é difícil cravar data, em cinema, atrasos acontecem. Essa área temática no Beto Carrero, baseada no filme, também vinha sendo conversada há anos. Se tivéssemos contratado a NASA para planejar, talvez não tivesse dado tão certo.
Juliano Prado – Começamos a conversar sobre as duas coisas há uns cinco anos. Foram dois projetos bem complexos que calharam de cair na mesma semana, porque foi dando muita coisa errada no caminho. Meio escrever certo por linhas tortas.
Fazer um filme é uma maratona; ficamos sem férias todo esse tempo. A gente até viajava, mas sempre com o laptop, porque a equipe depende diariamente de aprovações de direção, desde a cor de um vidro até o enquadramento de luz.
Cena de ‘Galinha Pintadinha: O filme’
Divulgação
g1 – O estilo visual chama atenção pela computação gráfica dialogar fortemente com a textura e o ritmo do stop motion. Como chegaram a essa escolha técnica?
Marcos Luporini – Uma das coisas que sempre falei foi: “Vamos tomar cuidado para não bater de frente com a Pixar. Não vamos querer sair no braço com a Pixar” (risos). Escolhemos um estilo que dialoga com o stop motion. Você vê que não é, mas tem aquela pegadinha gostosa que prende o olhar. Queríamos uma estética muito fofa para equilibrar uma camada dramática um pouco mais profunda.
Tem lá a aventura, tem essa história da troca dos ovos, que é que é pras crianças menores seguirem, né? Tem o medinho, tem a emoçãozinha, tal, tem a aventurinha, tudo certinho ali no lugar, mas tem essa essa camada mais dramática, numa estética bem fofinha
Juliano Prado – Tecnicamente, usamos o conceito de animar “em dois”, ou “on twos”. O filme roda a 24 quadros por segundo para cenários, efeitos e câmera, mas a animação dos personagens é feita a 12 quadros. Isso dá um espaço para a mente preencher o movimento e aproxima do stop motion. As escolhas de enquadramento também evitaram aquela estética de câmera frenética de videogame. E a textura foi uma batalha à parte.
Aquilo lá a gente passou por 1.001 texturas, parecia uma esponja, parecia não sei o que lá, até chegar no pelinho, né? Quando chegamos, foi um pesadelo pras máquinas fazerem. Pelinho por pelinho. Para você ter uma ideia, havia frames que demoravam quatro horas para serem renderizados.
Então foi uma coisa que, assim, foi realmente a grande dificuldade técnica do projeto, que chegou a atrasar mesmo o cronograma no final. Foi o grande desafio técnico do negócio. Por uma opção estética, no fim.
Marcos Luporini – Mas deixa eu falar uma coisa. Engraçado esse negócio. Você fala: “Ah, o filme é bonito, né? Esteticamente ele é bonito”. Mas parece que você vem de uma guerra para entregar uma flor no final, sabe?
Assim, é uma quebradeira, é uma briga, é um esforço, é uma dificuldade. Você passa pela lama, atravessa o campo de batalha, para entregar a flor mais bonita que você conseguir. É uma brutalidade aqui no fim para tentar entregar leveza (risos).
g1 – Olhando para trás, as motivações de quando a marca começou continuam as mesmas? Como a chegada dos filhos impactou isso?
Marcos Luporini – É difícil dizer exatamente quando o projeto começou. As músicas do primeiro DVD foram gravadas lá em 2002. Eu só fui ter filho 18 anos depois. Então, quando fiz as primeiras, não fez parte da minha motivação. Quando compus e escolhi aquelas canções, fiz pensando na minha própria criança interior (risos).
Juliano Prado – Eu já tinha filhas pequenas na época. Mas a motivação nossa era muito: “Vamos brincar de fazer desenho animado, vai ficar bonitinho”.
Marcos Luporini – Lembro que, quando levei as músicas para mostrar ao Juliano, a filha dele ouviu e perguntou se era um presente para ela. Ali a gente já sentiu que estava no caminho certo.
g1 – Vocês já tinham cerca de 15 anos de estrada fazendo clipes e historietas com esses personagens quando começaram a desenvolver o filme. O quanto essa bagagem ajudou a moldar as decisões?
Juliano Prado – Ajudou principalmente na relação entre os personagens. Alguns já existiam na série “Galinha Pintadinha Mini” e nas peças de teatro. O clipe musical não desenvolve muito certas personas, mas o teatro sim. O Doutor Peru, por exemplo, é um personagem que foi basicamente desenvolvido no palco: a voz, o jeito dele ser um médico que não percebe o óbvio. Isso veio do ao vivo. Mas uma história desse tamanho e com essa profundidade, a gente nunca tinha trabalhado.
A experiência também ensinou que não dava para colocar todo mundo. Os clipes têm aranha, muitos animais. Precisávamos escolher uma linha e focamos nos galináceos, nas aves, criando uma história de origem que se passa antes de tudo o que acontece nos clipes. E teve o desafio de fazer a Galinha falar. Até então, a personalidade dela tinha um limite bem rígido. Com o longa, decidimos expandir essa fronteira.
Cena de ‘Galinha Pintadinha: O filme’
Divulgação
g1 – A Galinha virou um ecossistema gigante: tem parque, shows, brinquedos, roupas, canal de vídeo. Quão envolvidos vocês dois ainda conseguem estar nisso tudo?
Marcos Luporini – Nós estamos até o pescoço (risos). É claro que, conforme a coisa ganha complexidade, você precisa entender que a sua mão não vai tocar em tudo. Mas a gente se envolve muito e tudo passa por aprovação. Para você ter uma ideia, na área temática do Beto Carrero tem muita coisa de áudio que eu mesmo sentei e fiz. Pensei na trilha, achei que ficaria bonito e falei: “Deixa que eu mesmo faço”. Fui lá, compus a música, criei os efeitos (risos). Chega a esse nível.
A Galinha é uma verdadeira professora, porque cada área tem suas regras. No licenciamento, caderno tem uma agenda, higiene pessoal tem outra, brinquedo tem outra. Tem ovo de galinha. Cada segmento tem sua feira de negócios, seus prazos de entrega e particularidades. Teatro funciona de um jeito, cinema de outro, série de outro.
A gente tem uma equipe interna enxuta e conta com muitos parceiros, cada um no seu quadrado, mas continuamos com a mão na massa. Tem dia em que o Juliano está fechando uma edição e eu estou masterizando áudio no desespero, porque temos que entregar no mesmo dia. É uma empresa com uma dinâmica bastante horizontal.
g1 – A Bromélia sempre foi descrita como uma empresa enxuta. Qual é o tamanho da estrutura hoje para dar conta de tantas frentes?
Marcos Luporini – São umas 3 mil pessoas, mais ou menos (risos). Brincadeira. Não é nada perto disso.
Juliano Prado – Olha, nosso núcleo duro tem cerca de 20 e poucas pessoas. Temos o departamento de ao vivo para cuidar dos shows, a área de produção, o marketing e redes sociais, além do administrativo e jurídico. Eu e o Marcos encabeçamos a criação dos produtos e lançamentos. Começamos no YouTube vendendo DVDs e fomos crescendo livres, multitelas. A Galinha virou uma espécie de diva pop, que gera meme, estampa bolo e tem uma carreira de lançamentos musicais como se fosse uma artista de verdade.
Marcos Luporini – E temos muitos parceiros externos. O licenciamento, por exemplo, é tocado com uma agência parceira porque cada segmento tem uma feira, um calendário e particularidades próprias. Essa estrutura em rede é o que nos permite continuar funcionando.
Cena de ‘Galinha Pintadinha: O filme’
Divulgação
g1 – Ao longo desses anos, vocês enfrentaram disputas de direitos autorais e tiveram problemas com pirataria e cópias. Como está essa relação hoje?
Marcos Luporini – No começo, com o espanhol, tivemos alguns claims no YouTube de pessoas tentando reivindicar músicas que adaptamos do domínio público. Chegou a acontecer até com música própria minha, o que foi resolvido diretamente pela nossa editora. Sobre cópias e peças não autorizadas, isso é mais forte quando a marca é a novidade absoluta do momento. Hoje, a Galinha é uma marca consolidada.
Juliano Prado – Existe o artesanato, a pessoa que faz um boneco de crochê ou pinta a parede de uma escola, e isso é um uso afetivo que a gente acha até bonito ter. O problema é quando vira produção industrial não autorizada, como os contêineres de produtos e DVDs piratas que enfrentamos no passado. Aí é preciso agir para proteger os parceiros licenciados que fazem o trabalho correto.
g1 – Em quantos países a Galinha Pintadinha está presente hoje? Vocês têm dimensão do alcance internacional da marca?
Juliano Prado – Como a distribuição é muito forte pelo YouTube, é até difícil precisar sem um relatório detalhado na mão, mas o alcance é global. Além do Brasil, a nossa audiência mais pesada é em espanhol, na América Latina. O mercado latino nos Estados Unidos também é muito forte, e temos presença em vários países da Europa. Já tivemos licenças de TV na Ásia, como na Coreia do Sul, além de contratos na Rússia, Índia e Oriente Médio. Às vezes o negócio entra só via canal do YouTube, às vezes como licenciamento de série ou das músicas. O conteúdo em inglês também performa muito bem e acaba espalhado por diversos territórios. A gente teve esse trabalho de traduzir o repertório para sete línguas no início — alemão, japonês, italiano —, e hoje já tem bem mais porque os próprios parceiros locais vão adaptando.
Marcos Luporini – Essa parte territorial tem coisas muito curiosas. Por exemplo: o italiano performa super bem na Suíça, algo que eu mesmo não imaginava. Mas você nota claramente a força da cultura latina. A Galinha funciona cem vezes melhor na Itália do que na Alemanha, por exemplo. Ela acaba sendo uma professora até de autoconhecimento. Hoje, quando viajo, entendo com muita clareza que sou uma pessoa latina. Sei onde vou me sentir mais à vontade e onde preciso ter mais cuidado com a comunicação, porque certas culturas simplesmente não batem com a mesma facilidade.
Cena de ‘Galinha Pintadinha: O filme’
Divulgação

Fonte: G1 Entretenimento

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