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Home»Entretenimento»‘Vicentina pede desculpas’ é o ‘Aquarius’ do diretor de ‘Marte Um’? Gabriel Martins explica semelhanças
Entretenimento

‘Vicentina pede desculpas’ é o ‘Aquarius’ do diretor de ‘Marte Um’? Gabriel Martins explica semelhanças

agosto 27, 2026Nenhum comentário0 Visitas

Rejane Faria em cena de ‘Vicentina pede desculpas’
Denize dos Santos/Netflix
Demorou quatro anos, mas finalmente o celebrado diretor de “Marte Um” (2022), Gabriel Martins, vai lançar seu próximo filme. “Vicentina pede desculpas”, segundo projeto solo do cineasta mineiro de 38 anos, vai estrear nos cinemas brasileiros em 5 de novembro.
A obra, uma das 15 pré-selecionadas pela Academia Brasileira de Cinema para talvez representar o país no Oscar 2027, antes disso ainda participa de competições em festivais como o de San Sebastián e o de Toronto, em setembro.
Em “Vicentina pede desculpas”, Martins se reencontra com parceiros de “Marte Um”, como Rejane Faria e Renato Novaes para contar a história de uma mãe que precisa lidar com luto da morte do filho — ao mesmo tempo em que parte em uma jornada para pedir desculpas às famílias dos passageiros do ônibus que ele dirigia.
“É um filme sobre entender assim o luto, a morte dentro de uma estrutura contemporânea de cidade urbana. Nesse caso, Belo Horizonte. E falar também sobre essa coletividade”, afirma o diretor ao g1.
Quais as chances de o Brasil concorrer ao Oscar 2027?
“A gente quer falar dessas conexões humanas. É o desejo desse filme. Para além disso, falar sobre masculinidade, a partir do filho, a partir de encontros que ela tem. E falar sobre maternidade, também, de uma maneira não superficial.”
Depois de um período nos cinemas brasileiros, o filme vai ser lançado simultaneamente em mais de 190 países na plataforma de streaming Netflix, em 20 de novembro.
Na entrevista, o cineasta falou sobre os paralelos inesperados com o começo da carreira de outro nome importante do cinema nacional contemporâneo, Kleber Mendonça Filho, as semelhanças de “Vicentina pede desculpas” com “Aquarius” (2016), a expansão do público de obras brasileiras e, claro, o papel do Oscar em tudo isso.
Leia a conversa completa abaixo, editada para clareza:
g1 – Você fez uma sessão de “Marte Um” com mediação do Kleber Mendonça Filho. Pode ser só uma loucura minha, mas eu comecei a ver um certo paralelo entre o seu filme e “O som ao redor”, que foi o primeiro dele. Tem uma coisa muito realista, um naturalismo cinematográfico brasileiro nos dois. Ambos foram suas estreias na direção solo, e ambos foram escolhidos para representar o Brasil no Oscar. Dá para falar então que o “Vicentina pede desculpas”, sem saber muito sobre o filme, é o seu “Aquarius”?
Gabriel Martins – Nossa, essa pergunta aí foi interessante (risos). Cara, eu não tinha pensado muito sobre essa analogia, né? Embora eu ache que eu me comunico, sim, com o cinema do Kleber de várias formas. Acho que tem uma relação muito forte do cinema do Kleber entre personagem, espaço e a maneira de dialogar cinematograficamente com essas duas coisas, né? Que eu acho muito legal.
Talvez, a coisa que que mais se comunica é o fato de de vir de dois filmes — no caso, “Marte Um” e “O som ao redor” — que são filmes de conjunto, né? De um grupo de personagens. E, dos filmes que eu dirigi, esse é o primeiro filme muito focado em uma personagem. E talvez no caso do “Aquarius” também seja a mesma coisa.
Isso foi uma coisa muito interessante assim para mim. Eu queria mostrar um pouco essa jornada de uma mulher. Focar não só na história dela, mas também visualmente. Para mim era uma coisa muito legal assim pensar que todo dia eu estava acordando e indo para o set para filmar o rosto da Rejane. Mais do que o rosto da Rejane, o rosto dessa personagem. Da Vicentina, né?
Então, acho que com certeza esses filmes se comunicam por um desejo de investigação parecido. E, para mim, esse lugar dessa personagem centralizada.
Fazer um estudo de personagem era uma coisa que eu queria fazer há um tempo. E antes mesmo do “Marte Um”, quando eu fiz o “No coração do mundo” (2019), também era um grande conjunto, um filme muito sobre um espaço, sobre uma região que não tem ali uma protagonista ou um protagonista tão bem definido.
Agora não. É uma pessoa mesmo. É a gente passar um tempo com essa pessoa. Enfim, achei sua analogia muito bem-vinda. Eu acho que faz faz sentido, sim.
Primeiro pôster de ‘Vicentina pede desculpas’
Divulgação
g1 – Numa entrevista que eu li, que foi publicada em julho ou junho, se eu não me engano, você ainda fala assim: “Ah, não posso falar muita coisa sobre o filme”. A gente já sabe que tem seus parceiros habituais, tem a Rejane, o Renato, a Grace (Passô). É um projeto de mais de 10 anos e eu já vi também você falar que filmou em 2024. O que mais que você pode falar sobre o “Vicentina”?
Gabriel Martins – Acho que é um filme sobre uma personagem, né? Essa personagem Vicentina, que leva o nome da minha avó. E é um filme sobre entender o luto, a morte dentro de uma estrutura contemporânea de cidade urbana. Nesse caso, Belo Horizonte. E falar também sobre essa coletividade. A coletividade como uma uma solução para momentos difíceis como esse.
Acho que isso, principalmente entendendo o nosso mundo. Não vou falar nem só de Brasil ou BH ou grandes cidades, mas o nosso mundo como um mundo que cada dia me parece mais individualizado. As pessoas mais separadas, assim.
Essa jornada individual da Vicentina — ela vai falar também disso. De conexões. O próprio título do filme já traz o gesto do filme, que é uma personagem pedindo desculpa para as pessoas a partir desse acidente. E se entende que o filho dela provocou o acidente como um suicídio.
A gente quer falar dessas conexões humanas. É o desejo desse filme. Para além disso, falar sobre masculinidade, a partir do filho, a partir de encontros que ela tem. E falar sobre maternidade, também, de uma maneira não superficial.
Acho que é um filme que tem o que eu sempre tive o desejo de trazer: a dor mesmo desses encontros.
Se o “Marte Um” era um filme muito, talvez, sobre essa comunicação entre essa família — ou da falha de comunicação —, acho que o Vicentina é de alguma forma também sobre essa possibilidade de escuta, essa possibilidade de perdão em um mundo no qual, na verdade, todo mundo parece estar mais interessado em se atacar, em culpabilizar os outros.
É engraçado, porque é um filme que eu fiquei o tempo todo com medo dele envelhecer. É um projeto tão antigo que para mim eu ficava o tempo todo assim: “Nossa, eu estou tentando fazer esse filme. Estou tentando fazer esse filme. Será que, quando ele existir, ainda vai ser relevante, essas temáticas, esse desejo?”
E acho que me parece que sim. Me parece que talvez não só se manteve relevante como agora, mais que nunca, é um momento muito importante dessa história nascer da maneira que ela é, pelas coisas que ela fala.
g1 – Por que que levou tanto tempo para para para sair?
Gabriel Martins – Eu acho que é um processo natural dentro de uma ideia de cinema independente brasileiro. Que os financiamentos e as oportunidades não são tão óbvias o tempo todo, né? Essa é uma questão.
E eu acho que também esse projeto que ficou escrito, mas dentro de uma produtora como a minha, que tem ali três diretores, vários projetos. Então, eu escrevi esse projeto e nesse meio tempo o “Marte Um” se mostrou como uma possibilidade mais concreta de ser executado primeiro.
Acho que os filmes têm um pouco uma vida própria, um tempo. E acabou fazendo sentido também que eu estivesse um pouco mais maduro para fazer esse projeto no momento que fiz. Com essa parceria com a Netflix que acho que propiciou um volume de produção mais robusto, que deu conta dessa história, que é difícil.
Era um roteiro grande, né? Era um roteiro bem desafiador, muitas locações. Foi um pouco uma mistura de tudo assim: uma mistura desse desafio da gente, principalmente aqui em Minas, não ter tantos editais para longa-metragem sempre. Para projetos robustos como esse, então, nem se fala, né?
Mas eu acho que, no fim das contas, eu também eu respeito muito — e a gente, a produtora, respeita muito — o tempo assim dos processos.
A gente fala assim: “Nossa, demorou muito tempo para fazer”, e parece que é sempre num tom de reclamação. Em parte é, né, porque a gente quer que o cinema brasileiro nos dê mais oportunidades.
Mas, ao mesmo tempo, eu acho que também o filme nasce quando ele tem que nascer, da forma como ele tem que nascer. E eu acho que o “Vicentina”, é, me parece mais um um exemplo desse, né?
Camilla Damião, Rejane Faria, Cícero Lucas e Carlos Francisco em cena de ‘Marte Um’
Divulgação
g1 – No site da Ancine, diz que “Marte Um” teve um público um pouco menor de 100 mil pessoas.
Gabriel Martins – Foi mais, foi mais de 100 mil pessoas, na verdade.
(“A distribuidora me passou o numero de 104.417”, afirmou Martins, depois da entrevista. “Tem borderôs que a Ancine não registrou, pois tem salas não cadastradas.”)
g1 – Ah, que bom. Porque me parece pouco mesmo. É um dos melhores filmes dos dos dos últimos anos, tranquilamente.
Gabriel Martins – Obrigado.
g1 – Como melhorar esse alcance? O filme foi sucesso com a crítica, escolhido para tentar ser o representante do Brasil no Oscar e ainda teve um um público tanto um tanto quanto limitado.
Gabriel Martins – Tentando dar uma resposta complexa um pouco mais compacta aqui (risos), eu acho que a coisa que eu colocaria como simples é o investimento público. Transformar o cinema como parte real e vital da cultura brasileira. Não só o cinema, mas todas as artes.
Entender que o cinema, com essa cadeia produtiva muito ampla e muito cara — a gente não pode deixar que, no fim das contas, fique parecendo que é a culpa do filme ou da distribuidora que não conseguiu fazer o marketing do jeito certo.
Na verdade, é um problema que começa ali nas escolas, né? De criar um interesse e uma cultura. Criar salas de cinema públicas, de repente, que sejam mais acessíveis do que as salas que nós já temos.
Acho que transformar isso de certa forma no patrimônio cultural para que quando, por exemplo, uma Cinemateca Brasileira pegue fogo, isso seja uma questão muito grave, e não seja só mais uma questão que as pessoas nem sabem o que é.
Então, eu acho que existe uma cadeia que precisa agir de várias formas. Existe a disposição disso no mercado brasileiro cinematográfico — pessoas que trabalham com cineclubes, professores, pesquisadores —, e eu acho que existe cada vez mais o interesse das pessoas também em resgatar o cinema brasileiro e assistir o que é feito aqui.
Só que acho que sem investimento — investimento para se poder ter mais salas de cinema, para de fato proteger as salas de cinema e o espaço de cotas para a produção brasileira —, a gente não vai conseguir mudar esse cenário. Então não existe muito uma outra solução, a meu ver, a não ser um investimento muito forte em todas essas cadeias para construir atenção e valorização para o cinema brasileiro.
Rejane Farias e Renato Novaes em cena de ‘Vicentina pede desculpas’
Denize dos Santos/Netflix
g1 – Essa semana saíram lá os os 15 filmes que podem chegar a representar o Brasil no Oscar. “Vicentina” está entre eles. É, aliás, um grande momento do do cinema mineiro. O “Nosso Segredo”, do qual você é um dos montadores, também está lá.
Gabriel Martins – Sim.
g1 – Eu já vi você falando que “toda essa questão de Oscar é legal, mas também não pode ser apenas isso que exista”. Mas eu eu sinto também que ela ajuda a trazer a atenção de volta. O público no geral tem essa questão, de olhar o mundo reconhecendo, e aí começa a reconhecer também. O quanto isso pode ajudar também a fomentar esse interesse e a formar o público pelo pelo cinema nacional?
Gabriel Martins – Existe uma visibilidade que é inevitável, né? E jornalisticamente falando, em termos de opinião pública, acho que isso lembra as pessoas que: “Olha, gente, tem o cinema brasileiro forte”. Inclusive em outras regiões do país. No Recife, a gente viu aí com “O Agente Secreto”. “Marte Um” aconteceu isso, né? De repente começou a se falar mais ainda de cinema mineiro.
Então eu acho que qualquer tipo de destaque, até pensando nos festivais internacionais. O “Nosso Segredo” estava em Berlim, a gente está aí em Toronto, San Sebastián. Eu acho que aos poucos passos a gente vai trazendo atenção, mas a única coisa que eu sinto é que não pode ser só isso.
Porque, se for só isso, vai continuar sendo exceção e êxitos individuais dos filmes e de produções que têm modelos muito específicos. Eu acho que o que a gente tem que tentar, nesse volume de atenção que o Brasil tem tido em premiações nos últimos dois anos, realmente fomentar tudo isso que eu já falei na resposta anterior, né? De algo que de fato sedimente espaço até para novos talentos.
Novas produtoras que estão surgindo por aí, tanta gente legal que não necessariamente vai nesse momento já da sua carreira chegar lá no Oscar com o primeiro filme, mas eu acho que merece também ter seu espaço, merece também ter um público maior do que o do “Marte Um”.
Eu acho que a gente precisa realmente construir esse caminho simplesmente porque eu acho que a gente merece, assim. A cultura brasileira e o cinema brasileiro merecem por tudo que vêm fazendo.

Fonte: G1 Entretenimento

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